Lá no fundo da lagoa tem todos os meus barquinhos naufragados e todos os tesouros que foram com eles. Eu acreditei. Meus barquinhos brancos de papel comidos pela água, eu queria ainda lembrar como se dobra um papel de um jeito que ele vire embarcação pros meus sonhos, eu queria ainda poder fazer uma dessas ilusões flutuantes pra soltar naquele pequeno mar que é a minha lagoa. A areia seca, às vezes eu sinto ela encher a minha boca e escorrer pelos meus olhos e pelos meus ouvidos também. Tem tanta areia na borda da minha lagoa, pequeno mar de barcos ilusões comidos pela água, desfeitos em tudo como tudo deve ser. Eu gosto de papel por isso. Nunca achei que seria o fogo a destruir meus barquinhos, meu papéis, o fogo guloso, nunca achei que seria ele. Mas a água, impetuosa que muda tudo de lugar e quando a gente vê só deixou o lixo e só deixou a morte, a água nunca me deixou duvidar. Ela comeu meus barquinhos que flutuavam porque se enfiou no papel até ele já não agüentar os tesourinhos de plástico e pedregulho que carregava. Eu gosto do papel por isso. Quando é a hora ele cede, simplesmente, e não pode se arrepender porque era mesmo fraco demais pra aguentar. E, por ser fraco, ele se perde na água e se deixa desfazer, material perfeito pras minhas ilusões.
quarta-feira, 27 de abril de 2011
quarta-feira, 6 de abril de 2011
Desta vez, outro eu
Ele cuspia na minha cara enquanto ia enfileirando as palavras atrás dos dentes. E eu, salpicada de raiva, de frustração, ouvia cada ofensa e penso que as incorporava. Já era tudo aquilo que ele dizia e isto, por mais doído que fosse, me era libertador. Ser cruel, magoar, era este o preço que se pagava por querer se só? Ah, então era irresistível... Ser tudo o que eu abominava frente as acusações ébrias desmanchando-se em palavrões. Como era bom não ter justificativa, não ter desculpa. Encarar cada ato desconsiderado e supérfluo e me admitir dona dele, encerrando-o assim em minha responsabilidade. Chegava a me deixar tonta.
Como quando o acolhi da primeira vez, qual bicho molhado, ferido e pequeno que ele era e o alimentei tirando de minhas próprias entranhas, mal sabendo eu que o sentimento tão quente era porque eu acolhia também a mim mesma, escondida atrás da figura dele. Eu o acolhia agora também, suportando seu destempero e compreendendo como se tivesse magoado a mim mesma e sentindo eu também a mágoa. Mas acolhia, sem perceber, a mim mesma, só que desta vez eu era outra.
Sim, depois de tudo que nos passou não pense que não aconteceu a mim também, eu senti cada bater de asas. Não pense que porque o abandonei aí, com a cria rejeitada nos braços, não levei também um pouco da doença comigo. Meu coração é só estilhaços. Um pouco como o seu. Mas isto me faz mais inteira que jamais.
segunda-feira, 4 de abril de 2011
Compromisso
Luz. Na escuridão eu mal o vejo, eu mal o vi. Estava azul e acho que vi outra cor jogar-se em sua camisa, como eu me imprimi em você. Que imagem restou? Não sei o que há agora. Acho que me lembro de um cheiro. As mãos se unem aos corpos e acompanham toda forma musical da escuridão. Há torpor em nossas veias, sangue em nossos rostos, verdade em nossas faces veladas. Eu minto nesta inconseqüência e é o perfume no seu pescoço que me denuncia toda a fragilidade me desfazendo em seus braços. Eu queria estar nua. Por isso estamos dançando e eu quase penso que é a mesma coisa. Nossa conversa desconexa parece um sussurro difuso na vaguidão de um sonho. Mas estamos gritando. Neste ambiente, somos sós apesar de juntos e a maior das sinceridades não significa verdade alguma. Guarde para você, eu o tenho comigo. Um quase cheiro, perfume, imagem, palavra quebrada. Um rosto de luz. Por que a intimidade teve de ser tão pública, meu Deus? Mal se sabe onde acaba o corpo e começa o coração.
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