domingo, 29 de maio de 2011

Como se sentisse arte ali, escapando-se por entre meus dedos. Uma luz que eu, desesperada de tanto debater-me no escuro, tento segurar. Um feixe de luz apenas, ou talvez um único fio de lucidez. Meus dedos tentam em vão segurá-lo, apertá-lo dentro das mãos sujas de sangue, meu próprio sangue que arranquei ao tentar tirar minha pele para me deixar sair. Eu choro, como não choraria?, pois dói e o sangue se esvai e as feridas abertas me fazem sentir frio. Meu corpo treme, tenho olhos apertados que se turvam e quase nada, pressinto a luz sumir. Está se afastando na escuridão, subindo a alturas que não posso alcançar. Está me deixando.
Não há caminho para fora.
Este meu corpo me encerra aqui para sempre. Posso rasgar sua pele e vazar seu sangue, mas não sairei. Estou presa.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Lá no fundo da lagoa

Lá no fundo da lagoa tem todos os meus barquinhos naufragados e todos os tesouros que foram com eles. Eu acreditei. Meus barquinhos brancos de papel comidos pela água, eu queria ainda lembrar como se dobra um papel de um jeito que ele vire embarcação pros meus sonhos, eu queria ainda poder fazer uma dessas ilusões flutuantes pra soltar naquele pequeno mar que é a minha lagoa. A areia seca, às vezes eu sinto ela encher a minha boca e escorrer pelos meus olhos e pelos meus ouvidos também. Tem tanta areia na borda da minha lagoa, pequeno mar de barcos ilusões comidos pela água, desfeitos em tudo como tudo deve ser. Eu gosto de papel por isso. Nunca achei que seria o fogo a destruir meus barquinhos, meu papéis, o fogo guloso, nunca achei que seria ele. Mas a água, impetuosa que muda tudo de lugar e quando a gente vê só deixou o lixo e só deixou a morte, a água nunca me deixou duvidar. Ela comeu meus barquinhos que flutuavam porque se enfiou no papel até ele já não agüentar os tesourinhos de plástico e pedregulho que carregava. Eu gosto do papel por isso. Quando é a hora ele cede, simplesmente, e não pode se arrepender porque era mesmo fraco demais pra aguentar. E, por ser fraco, ele se perde na água e se deixa desfazer, material perfeito pras minhas ilusões.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Desta vez, outro eu

Ele cuspia na minha cara enquanto ia enfileirando as palavras atrás dos dentes. E eu, salpicada de raiva, de frustração, ouvia cada ofensa e penso que as incorporava. Já era tudo aquilo que ele dizia e isto, por mais doído que fosse, me era libertador. Ser cruel, magoar, era este o preço que se pagava por querer se só? Ah, então era irresistível... Ser tudo o que eu abominava frente as acusações ébrias desmanchando-se em palavrões. Como era bom não ter justificativa, não ter desculpa. Encarar cada ato desconsiderado e supérfluo e me admitir dona dele, encerrando-o assim em minha responsabilidade. Chegava a me deixar tonta.
Como quando o acolhi da primeira vez, qual bicho molhado, ferido e pequeno que ele era e o alimentei tirando de minhas próprias entranhas, mal sabendo eu que o sentimento tão quente era porque eu acolhia também a mim mesma, escondida atrás da figura dele. Eu o acolhia agora também, suportando seu destempero e compreendendo como se tivesse magoado a mim mesma e sentindo eu também a mágoa. Mas acolhia, sem perceber, a mim mesma, só que desta vez eu era outra.
Sim, depois de tudo que nos passou não pense que não aconteceu a mim também, eu senti cada bater de asas. Não pense que porque o abandonei aí, com a cria rejeitada nos braços, não levei também um pouco da doença comigo. Meu coração é só estilhaços. Um pouco como o seu. Mas isto me faz mais inteira que jamais.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Compromisso

Luz. Na escuridão eu mal o vejo, eu mal o vi. Estava azul e acho que vi outra cor jogar-se em sua camisa, como eu me imprimi em você. Que imagem restou? Não sei o que há agora. Acho que me lembro de um cheiro. As mãos se unem aos corpos e acompanham toda forma musical da escuridão. Há torpor em nossas veias, sangue em nossos rostos, verdade em nossas faces veladas. Eu minto nesta inconseqüência e é o perfume no seu pescoço que me denuncia toda a fragilidade me desfazendo em seus braços. Eu queria estar nua. Por isso estamos dançando e eu quase penso que é a mesma coisa. Nossa conversa desconexa parece um sussurro difuso na vaguidão de um sonho. Mas estamos gritando. Neste ambiente, somos sós apesar de juntos e a maior das sinceridades não significa verdade alguma. Guarde para você, eu o tenho comigo. Um quase cheiro, perfume, imagem, palavra quebrada. Um rosto de luz. Por que a intimidade teve de ser tão pública, meu Deus? Mal se sabe onde acaba o corpo e começa o coração.

terça-feira, 29 de março de 2011

Madrugada

Nestas horas de súbita consciência, em que a mente entra em contato prematuro com o mundo, estando ainda em carne viva no silêncio noturno, e o corpo tem calor demais, nestas horas eu tenho medo de começar a alucinar.
Às vezes, parece que, para enlouquecer, a mente só precisa se desencaixar do molde em que funciona, variando de formato ou de ângulo. E parece que, em poucos segundos, pode perder a lógica e o código e passar a trabalhar de maneira desconhecida.
Por mais que reconhecer que minha mente é superior a meu constante pensar- porque o contém-possa parecer algo libertador, essa noção me assusta. De repente, parece que não sei o que ela faria se deixasse de me reconhecer. E tenho medo do que restaria de mim se ela, que me conhece tão bem, resolvesse me destruir ou me prender.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Sustos

Há dias em que retorno carregando um enorme fracasso. Tão enorme quanto eu o fiz, sendo ele fracasso ou não. E digo isso porque tais dias se intercalam com outros em que o que carrego é pequena e preciosa satisfação. Mas tanto a massa pesada quanto o diamante diminuto são a mesma coisa, pois vêm da mesma matéria.
Vou da solidão absoluta à certeza mais quente e real de pertencer. Da completa apatia ao completo interesse. À insônia, ao trabalhar incessante, ao viver incessante. E novamente apatia exausta e resignada. Me esvazio tão rápido quanto a desconfiança puder me invadir, fazendo-me estranhar os próprios sonhos.
O que, afinal, quero? E sou.
Admiro quem pode destacar " sua-opinião-e-a-minha" e "minha-vida-e-a-sua". Acho bonito alguém saber o que é e em que acredita. É que, para mim, as coisas mais memoráveis só ocorreram quando pude assumir uma visão inédita. Não sei se estou sendo clara. O fato é que me incomoda esta flexibilidade, esta receptividade minha, pois, deste modo, parece que jamais terei algo a acrescentar ou algo a expor como meu. Ou mesmo eu.
Como é difícil ser sincera e não ter nada a dizer!

sábado, 19 de março de 2011

Lição

Quando pequena, uma vez colocara uma batata num pote com água para ver as raízes irromperem. Isto fora um experimento da escola. E, enquanto voltava para casa com a batata cheia de raízes dentro do pote com água, um menino se aproximou e disse:
- Se você não tomar cuidado, sua cabeça fica assim.
E desde então tomara cuidado para não deixar a mente se encharcar em qualquer lugar.

Frequentes questões

Como fazer-se presente na vida?
Como fazer-se notável no tempo?
Como fazer-se responsável e livre?
Onde se encontra a paixão?


Preferia não existir, ser mais um fantasma da cidade, pois desconhecia a fórmula de sua presença.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Tentando com o caderno estancar a areia que escorre da minha cabeça. deve ter sido alguma pancada muito forte que levei...

Resíduos

(pegue e leve embora)

Queria deixar os sapatos na borda da estrada. Abrir as solas dos meus pés contra a aspereza de tudo, reduzir todos os sentidos ao constante toque com o chão que o sol esquentou até a morte. Queria me deixar secar, também, até que já não me houvesse corpo para me ocupar de dores que pesam nos lugares errados. Meu objetivo seria então descobrir a fonte de tanto sangue antes que você fosse inteiro esvaziado de mim. Inundação que por fora me afoga e asfixia e por dentro esvazia até o agudo silêncio. Às vezes fecho os olhos contra o terror de tanta falta de luz que me atrofia a visão. Não queria senti-lo. Devia ter a medida certa das coisas. Às vezes queria eliminar quem sou para viver mais de leve. Não sei. Eu não entendo esse ritmo. Não entendo os sons que tem e até tento engolir a falta de gosto. Queria existir dentro de você. Sem voz, sem presença, sem matéria. Existir em você, quieta e somente. E ser um fantasma.



Sou um quebra cabeças. Tenho peças irregulares e é tão difícil me montar. Quando você terminar, vai perceber que há espaços vazios em mim. É que algumas peças estão perdidas e alguns vazios não podem ser preenchidos. Mas venha tentar.
Eu o convidei sem perceber que era a mim que cabia saber o que restaria de tantos pedaços quando unidos. Hoje eu sinto que sou mais frustrações do que afetos. Que difusas idéias são meus projetos. Se me dessem o fruto desta criação, eu não veria nada. Eu sou este nada.

É, de fato, porque está frio
a incerteza acentuada,
o querer desesperado,
sua ausência tão mais forte,

porque está frio e o céu se fecha,
não há manhã sobre meu corpo,
não há sinal que me convença,
a pele sua tão distante,

minha existência inerte.
E, ainda assim, amá-lo.
Sob o próprio ceticismo,

Encher carícias com ternura
A cada volta, senti-lo mais
presente, e de novo ausente.


Eu peço tanto de você,
queria não pedir nada.
Queria que tudo que sinto fosse gratuito e que eu conseguisse manter uma saudável indiferença
Que faria meu coração disparar somente à luz de sua presença.
E minha entrega pairar no ar,
ser recebida em você como um toque leve.
Queria não sofrer suas ausências
Viver meus dias apenas confortavelmente consciente de você.
Unir meu peito no seu
e meus lábios nos seus quentes lábios,
olhá-lo longamente
Sem o medo de que meu corpo desajeitado
não saiba se portar na falta de você
E não me perguntar, a cada vez em que o percebo em mim
se estou também em você
tão profunda e irrevogavelmente.


(março,abril, maio de 2010)

sábado, 12 de março de 2011

Ser não é natural

Aprende-se trejeitos, um cacoete talvez, mas a naturalidade... Ah, a naturalidade!
Movimentos espelhados e uma obediência forçada a instintos jamais escutados. Será que isto é tudo que se pode conseguir?
Às vezes, sente-se frio na pele, mas é no próprio corpo que está o calor necessário. E apenas a proximidade do corpo com sua própria e única presença pode nutri-lo de todo o conforto pleno. Quentura imóvel, o silêncio de dentro.
Eu hoje tenho muito menos medo do meu corpo do que já tive. Sei, porém, que custa coragem para ser. Ousadia não é inesgotável. Custa-me, a cada vez, toda a bravura que possuo para que o mundo acolha minha forma e me deixe ser. Natural? Jamais! Não enquanto o mundo me cobrar tanto por cada ato de humanidade absorvida e ensaiada que desejo encenar.
Eu, que não passava de uma réstia de luz numa poça d'água, tive esta oportunidade de existir nesta pele e nesta forma exata. Eu, que sempre admirei a vida humana, sem ter palavras ou conhecer a consciência para afirmá-lo, de repente me vi menina e me vi mulher. Sinto esta enorme responsabilidade, obrigação de ser livre para ser ao máximo, pois esta é a minha única chance.

sábado, 5 de março de 2011

Meu sorriso( ao som de lago dos cisnes)

A fera que vive dentro de mim pede sangue. É o alimento dela. Outro dia a vi arreganhar os dentes para mim num espelho. Era meu sorriso. Mas não meu propriamente dito. Dela. Seria meu se eu já tivesse aprendido a domá-la. Que lindo seria ver os movimentos sincronizados de fera e de menina e as vozes combinadas a reverberar no peito único, que é meu.

Praia

Sobre sal e pele, resta uma vida suada. O viver é tão coragem, a ousadia é enxergar. Qual o sentido de lançar-se de volta ao mar? Os pés que deixam o toque certo da areia para debaterem-se em água e, no meio fluente, sentirem que são suficientes. Nadar, pois! Sentir a inundação completa que se anuncia e, quando o corpo cansar, deixar que tudo escoe até não haver mais... Que não a seca. Chão estéril, porém apoio firme. Um caminho feito de ciclos, de estações e seus vestígios. Os ruídos não deixam rastro, mas ainda assim eles passam. Viver é ouvi-los, mesmo sem a certeza de poder coletar aquilo que importou. A imagem maior é a que se deixa diluir. Ganha mil sentidos, faces inúmeras. A imagem buscada é a experiência. Viver é saborear, saborear não é saber-se vivo. Apenas a afirmação do pensamento imprime aos olhos certa consciência. Lúcida ou não, a mente se constrói do desespero de querer provar-se real.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Fim

Júlia jamais tivera pudores com ele. Despia-se na sua frente e andava de sutiã e calcinha com ele no quarto, sem se importar se virava o rosto para o lado. Abominava as conveniências e a cautela, jogava-se crua em seus braços, entregando a ele seu ser bruto, sem limpar as partes que não prestavam ou que simplesmente ele não poderia tragar. Queria acreditar que não havia nesta honestidade toda um tempero de violência que tomava o lugar do carinho ao conduzi-los à intimidade.

Porém, Gonçalves a amava. E não havia nada mais imperativo do que isto. Para um moleque adentrando com tanta intensidade pelo mundo das mulheres como ele fazia, ter toda essa matéria assim, sem censura, espontaneamente sob si era um decreto para o amor. Não um amor terno, compreensivo, um amor de afagos e abrigo. Mas algo como a mais incontrolável força da natureza, um clarão espalhando terror no escuro do mato. Um amor de queimadura excedendo a pele, vazando-a em seu intento de passar.

E Júlia, quanto menos tinha, mais pretendia entregar, mas terminava por cobri-lo de migalhas sem jamais deixá-lo ter.

Naquela tarde, Gonçalves entrou no quarto de república para encontrá-la só, cabelo molhado espalhando sua presença, impregnando as paredes com ela. O livro na mão era apenas o disfarce de sua verdadeira função de vigiar o celular.

Não pousou a mochila na porta ao entrar. Não tinha violão a tiracolo nem procurou o parapeito para se equilibrar. Como jamais, manteve-se parado, completamente estacado. Nem mesmo o pensamento mexeu e talvez, naquele misto de raiva frustrada se formulando no peito, Gonçalves tenha sentido a paz máxima que se pode alcançar. Mas pouco durou. Sentiu Júlia em sua pele e em seu cabelo embaraçado como o ar salgado da praia que tudo invade com mar em vento.

Júlia ergueu o rosto, distraída. É possível que não o tivesse percebido junto à porta e que fosse apenas refletir sobre a frase lida, mas então o olhar esbarrou em Gonçalves. Ele tinha os olhos congelados numa posição estranha. Seriam lágrimas? Definitivamente, eram lágrimas naquela expressão turva e elas não demorariam a sair.

Abriu a boca, mas dizer o quê?

Ela estava bêbada, Gonçalves, ela estava frágil. Talvez em toda a sinceridade tenha se criado uma mentira muito grande. O corpo de Júlia entregue ao de Gonçalves fora apenas a prova daquela imposição. O amor cortante dele era, afinal, passivo, apenas a aceitação. E ela não poderia deixar de comandá-lo, pois Como era bom!

Mas agora, junto à porta, esses olhos lavados e este rosto amadurecido pela noite insone denunciam a exigência de Gonçalves. Pois mesmo um sacrifício tem sua demanda. E Júlia não pode cumpri-la, não pode sequer admitir a dívida que cavara naquele peito magro.

O celular vibrou, ambos se sobressaltaram. A mão de Júlia agarrou o aparelho com urgência e a lágrima de Gonçalves escorreu pelo rosto recém-escanhoado. Ela nunca o vira tão limpo.

O celular esperava. Dentro dele, haveria uma nova mensagem, provavelmente mais um jogo cruel com os mistérios de alguém que jamais lhe garantiria um futuro. Júlia precisava disto. Do outro lado, era Gonçalves, o amigo tão fiel, o único. A intimidade daquela figura alta a circundando de má vontade, a presença intermitente que no entanto era tão estável. Sentir o cheiro enevoado da camiseta preta, o vício dele não era o fumo, mas seu modo de ser. E Júlia não gostava deste modo de ser, mas gostava de tê-lo perto.

Ainda assim, baixou os olhos e abriu o celular.

Adeus, Gonçalves. Não tem mesmo jeito, vá embora.

E ele foi.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Reflexões de ano novo I

Adeus, meu dois mil e dez, querido dois mil e dez. Sem pesar, deposito seu corpo nesta maravilhosa fonte, que foi onde eu o encontrei. Estou me separando de você e, enquanto vou me afastando, minha sombra se destaca da sua e meu corpo se diferencia do seu.

Foram apenas doze meses, cujo peso agora se reduz a uma frase. Eu o amei. Amei tudo aquilo que você poderia ser e uma imagem vaga que tentei com tanta força focalizar. Mas agora que me afasto, você se torna mais nítido, ainda que menor, e menor.

Não nego que você seja lindo. Porém, a beleza que eu via esteve todo o tempo aqui dentro. Acho que não posso chamá-la de “eu”, mas certamente ela faz parte da brilhante chama queimando em meu peito. Ela o consumiu e o amor aquietou. Você, como tantos outros, passou.

E eu passei, também. Imprimi mais uma sombra contra este muro branco e agora continuo. Levo-o comigo no segredo de sua grandeza que nunca alguém pôde perceber assim. Só eu. Pois sou aquele pedaço de desconhecido e insignificante que faz a arte valer a pena. O coração que o artista, do alto de sua distância, fez viver.

Mas já estou atrasada. Há minutos em minhas mãos esperando que eu os esmague e modele de acordo com minha criação. Não sei o que farei com eles. Muitos serão certamente destruídos, vítimas de meu desespero por saber-me responsável por sua forma. Seu peso em minhas mãos me fará chorar e eu acabarei esmigalhando seus frágeis segundos, em vão.

No entanto, espero poder agir com sabedoria em alguns destes preciosos espaços de tempo. E, tomando-os delicadamente, farei deles a minha arte pessoal. Não quero falhar com meus minutos. Não quero, mas sei que muitas vezes falharei.

O mundo chegará bem perto à meia noite do dia trinta e um. Com um hálito quente de quem jamais parou de girar, ele sussurrará sobre meu rosto esta verdade óbvia. Mas eu sorrirei, porque estarei com o recém-nascido nos braços, toda a brilhante matéria que moldarei.

E então ergo-me, triunfante, apesar de fracassada. Na linha da meia noite, carregada de meus minutos destroçados, levanto meus olhos para o céu e, em homenagem ao novo tempo que ganhei, grito.

Grito de volta na cara do mundo.

(31 de dezembro de 2010)