terça-feira, 29 de março de 2011
Madrugada
segunda-feira, 21 de março de 2011
Sustos
sábado, 19 de março de 2011
Lição
Frequentes questões
quarta-feira, 16 de março de 2011
Resíduos
sábado, 12 de março de 2011
Ser não é natural
sábado, 5 de março de 2011
Meu sorriso( ao som de lago dos cisnes)
Praia
quinta-feira, 3 de março de 2011
Fim
Júlia jamais tivera pudores com ele. Despia-se na sua frente e andava de sutiã e calcinha com ele no quarto, sem se importar se virava o rosto para o lado. Abominava as conveniências e a cautela, jogava-se crua em seus braços, entregando a ele seu ser bruto, sem limpar as partes que não prestavam ou que simplesmente ele não poderia tragar. Queria acreditar que não havia nesta honestidade toda um tempero de violência que tomava o lugar do carinho ao conduzi-los à intimidade.
Porém, Gonçalves a amava. E não havia nada mais imperativo do que isto. Para um moleque adentrando com tanta intensidade pelo mundo das mulheres como ele fazia, ter toda essa matéria assim, sem censura, espontaneamente sob si era um decreto para o amor. Não um amor terno, compreensivo, um amor de afagos e abrigo. Mas algo como a mais incontrolável força da natureza, um clarão espalhando terror no escuro do mato. Um amor de queimadura excedendo a pele, vazando-a em seu intento de passar.
E Júlia, quanto menos tinha, mais pretendia entregar, mas terminava por cobri-lo de migalhas sem jamais deixá-lo ter.
Naquela tarde, Gonçalves entrou no quarto de república para encontrá-la só, cabelo molhado espalhando sua presença, impregnando as paredes com ela. O livro na mão era apenas o disfarce de sua verdadeira função de vigiar o celular.
Não pousou a mochila na porta ao entrar. Não tinha violão a tiracolo nem procurou o parapeito para se equilibrar. Como jamais, manteve-se parado, completamente estacado. Nem mesmo o pensamento mexeu e talvez, naquele misto de raiva frustrada se formulando no peito, Gonçalves tenha sentido a paz máxima que se pode alcançar. Mas pouco durou. Sentiu Júlia em sua pele e em seu cabelo embaraçado como o ar salgado da praia que tudo invade com mar em vento.
Júlia ergueu o rosto, distraída. É possível que não o tivesse percebido junto à porta e que fosse apenas refletir sobre a frase lida, mas então o olhar esbarrou em Gonçalves. Ele tinha os olhos congelados numa posição estranha. Seriam lágrimas? Definitivamente, eram lágrimas naquela expressão turva e elas não demorariam a sair.
Abriu a boca, mas dizer o quê?
Ela estava bêbada, Gonçalves, ela estava frágil. Talvez em toda a sinceridade tenha se criado uma mentira muito grande. O corpo de Júlia entregue ao de Gonçalves fora apenas a prova daquela imposição. O amor cortante dele era, afinal, passivo, apenas a aceitação. E ela não poderia deixar de comandá-lo, pois Como era bom!
Mas agora, junto à porta, esses olhos lavados e este rosto amadurecido pela noite insone denunciam a exigência de Gonçalves. Pois mesmo um sacrifício tem sua demanda. E Júlia não pode cumpri-la, não pode sequer admitir a dívida que cavara naquele peito magro.
O celular vibrou, ambos se sobressaltaram. A mão de Júlia agarrou o aparelho com urgência e a lágrima de Gonçalves escorreu pelo rosto recém-escanhoado. Ela nunca o vira tão limpo.
O celular esperava. Dentro dele, haveria uma nova mensagem, provavelmente mais um jogo cruel com os mistérios de alguém que jamais lhe garantiria um futuro. Júlia precisava disto. Do outro lado, era Gonçalves, o amigo tão fiel, o único. A intimidade daquela figura alta a circundando de má vontade, a presença intermitente que no entanto era tão estável. Sentir o cheiro enevoado da camiseta preta, o vício dele não era o fumo, mas seu modo de ser. E Júlia não gostava deste modo de ser, mas gostava de tê-lo perto.
Ainda assim, baixou os olhos e abriu o celular.
Adeus, Gonçalves. Não tem mesmo jeito, vá embora.
E ele foi.
quarta-feira, 2 de março de 2011
Reflexões de ano novo I
Adeus, meu dois mil e dez, querido dois mil e dez. Sem pesar, deposito seu corpo nesta maravilhosa fonte, que foi onde eu o encontrei. Estou me separando de você e, enquanto vou me afastando, minha sombra se destaca da sua e meu corpo se diferencia do seu.
Foram apenas doze meses, cujo peso agora se reduz a uma frase. Eu o amei. Amei tudo aquilo que você poderia ser e uma imagem vaga que tentei com tanta força focalizar. Mas agora que me afasto, você se torna mais nítido, ainda que menor, e menor.
Não nego que você seja lindo. Porém, a beleza que eu via esteve todo o tempo aqui dentro. Acho que não posso chamá-la de “eu”, mas certamente ela faz parte da brilhante chama queimando em meu peito. Ela o consumiu e o amor aquietou. Você, como tantos outros, passou.
E eu passei, também. Imprimi mais uma sombra contra este muro branco e agora continuo. Levo-o comigo no segredo de sua grandeza que nunca alguém pôde perceber assim. Só eu. Pois sou aquele pedaço de desconhecido e insignificante que faz a arte valer a pena. O coração que o artista, do alto de sua distância, fez viver.
Mas já estou atrasada. Há minutos em minhas mãos esperando que eu os esmague e modele de acordo com minha criação. Não sei o que farei com eles. Muitos serão certamente destruídos, vítimas de meu desespero por saber-me responsável por sua forma. Seu peso em minhas mãos me fará chorar e eu acabarei esmigalhando seus frágeis segundos, em vão.
No entanto, espero poder agir com sabedoria em alguns destes preciosos espaços de tempo. E, tomando-os delicadamente, farei deles a minha arte pessoal. Não quero falhar com meus minutos. Não quero, mas sei que muitas vezes falharei.
O mundo chegará bem perto à meia noite do dia trinta e um. Com um hálito quente de quem jamais parou de girar, ele sussurrará sobre meu rosto esta verdade óbvia. Mas eu sorrirei, porque estarei com o recém-nascido nos braços, toda a brilhante matéria que moldarei.
E então ergo-me, triunfante, apesar de fracassada. Na linha da meia noite, carregada de meus minutos destroçados, levanto meus olhos para o céu e, em homenagem ao novo tempo que ganhei, grito.
Grito de volta na cara do mundo.
(31 de dezembro de 2010)