terça-feira, 29 de março de 2011

Madrugada

Nestas horas de súbita consciência, em que a mente entra em contato prematuro com o mundo, estando ainda em carne viva no silêncio noturno, e o corpo tem calor demais, nestas horas eu tenho medo de começar a alucinar.
Às vezes, parece que, para enlouquecer, a mente só precisa se desencaixar do molde em que funciona, variando de formato ou de ângulo. E parece que, em poucos segundos, pode perder a lógica e o código e passar a trabalhar de maneira desconhecida.
Por mais que reconhecer que minha mente é superior a meu constante pensar- porque o contém-possa parecer algo libertador, essa noção me assusta. De repente, parece que não sei o que ela faria se deixasse de me reconhecer. E tenho medo do que restaria de mim se ela, que me conhece tão bem, resolvesse me destruir ou me prender.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Sustos

Há dias em que retorno carregando um enorme fracasso. Tão enorme quanto eu o fiz, sendo ele fracasso ou não. E digo isso porque tais dias se intercalam com outros em que o que carrego é pequena e preciosa satisfação. Mas tanto a massa pesada quanto o diamante diminuto são a mesma coisa, pois vêm da mesma matéria.
Vou da solidão absoluta à certeza mais quente e real de pertencer. Da completa apatia ao completo interesse. À insônia, ao trabalhar incessante, ao viver incessante. E novamente apatia exausta e resignada. Me esvazio tão rápido quanto a desconfiança puder me invadir, fazendo-me estranhar os próprios sonhos.
O que, afinal, quero? E sou.
Admiro quem pode destacar " sua-opinião-e-a-minha" e "minha-vida-e-a-sua". Acho bonito alguém saber o que é e em que acredita. É que, para mim, as coisas mais memoráveis só ocorreram quando pude assumir uma visão inédita. Não sei se estou sendo clara. O fato é que me incomoda esta flexibilidade, esta receptividade minha, pois, deste modo, parece que jamais terei algo a acrescentar ou algo a expor como meu. Ou mesmo eu.
Como é difícil ser sincera e não ter nada a dizer!

sábado, 19 de março de 2011

Lição

Quando pequena, uma vez colocara uma batata num pote com água para ver as raízes irromperem. Isto fora um experimento da escola. E, enquanto voltava para casa com a batata cheia de raízes dentro do pote com água, um menino se aproximou e disse:
- Se você não tomar cuidado, sua cabeça fica assim.
E desde então tomara cuidado para não deixar a mente se encharcar em qualquer lugar.

Frequentes questões

Como fazer-se presente na vida?
Como fazer-se notável no tempo?
Como fazer-se responsável e livre?
Onde se encontra a paixão?


Preferia não existir, ser mais um fantasma da cidade, pois desconhecia a fórmula de sua presença.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Tentando com o caderno estancar a areia que escorre da minha cabeça. deve ter sido alguma pancada muito forte que levei...

Resíduos

(pegue e leve embora)

Queria deixar os sapatos na borda da estrada. Abrir as solas dos meus pés contra a aspereza de tudo, reduzir todos os sentidos ao constante toque com o chão que o sol esquentou até a morte. Queria me deixar secar, também, até que já não me houvesse corpo para me ocupar de dores que pesam nos lugares errados. Meu objetivo seria então descobrir a fonte de tanto sangue antes que você fosse inteiro esvaziado de mim. Inundação que por fora me afoga e asfixia e por dentro esvazia até o agudo silêncio. Às vezes fecho os olhos contra o terror de tanta falta de luz que me atrofia a visão. Não queria senti-lo. Devia ter a medida certa das coisas. Às vezes queria eliminar quem sou para viver mais de leve. Não sei. Eu não entendo esse ritmo. Não entendo os sons que tem e até tento engolir a falta de gosto. Queria existir dentro de você. Sem voz, sem presença, sem matéria. Existir em você, quieta e somente. E ser um fantasma.



Sou um quebra cabeças. Tenho peças irregulares e é tão difícil me montar. Quando você terminar, vai perceber que há espaços vazios em mim. É que algumas peças estão perdidas e alguns vazios não podem ser preenchidos. Mas venha tentar.
Eu o convidei sem perceber que era a mim que cabia saber o que restaria de tantos pedaços quando unidos. Hoje eu sinto que sou mais frustrações do que afetos. Que difusas idéias são meus projetos. Se me dessem o fruto desta criação, eu não veria nada. Eu sou este nada.

É, de fato, porque está frio
a incerteza acentuada,
o querer desesperado,
sua ausência tão mais forte,

porque está frio e o céu se fecha,
não há manhã sobre meu corpo,
não há sinal que me convença,
a pele sua tão distante,

minha existência inerte.
E, ainda assim, amá-lo.
Sob o próprio ceticismo,

Encher carícias com ternura
A cada volta, senti-lo mais
presente, e de novo ausente.


Eu peço tanto de você,
queria não pedir nada.
Queria que tudo que sinto fosse gratuito e que eu conseguisse manter uma saudável indiferença
Que faria meu coração disparar somente à luz de sua presença.
E minha entrega pairar no ar,
ser recebida em você como um toque leve.
Queria não sofrer suas ausências
Viver meus dias apenas confortavelmente consciente de você.
Unir meu peito no seu
e meus lábios nos seus quentes lábios,
olhá-lo longamente
Sem o medo de que meu corpo desajeitado
não saiba se portar na falta de você
E não me perguntar, a cada vez em que o percebo em mim
se estou também em você
tão profunda e irrevogavelmente.


(março,abril, maio de 2010)

sábado, 12 de março de 2011

Ser não é natural

Aprende-se trejeitos, um cacoete talvez, mas a naturalidade... Ah, a naturalidade!
Movimentos espelhados e uma obediência forçada a instintos jamais escutados. Será que isto é tudo que se pode conseguir?
Às vezes, sente-se frio na pele, mas é no próprio corpo que está o calor necessário. E apenas a proximidade do corpo com sua própria e única presença pode nutri-lo de todo o conforto pleno. Quentura imóvel, o silêncio de dentro.
Eu hoje tenho muito menos medo do meu corpo do que já tive. Sei, porém, que custa coragem para ser. Ousadia não é inesgotável. Custa-me, a cada vez, toda a bravura que possuo para que o mundo acolha minha forma e me deixe ser. Natural? Jamais! Não enquanto o mundo me cobrar tanto por cada ato de humanidade absorvida e ensaiada que desejo encenar.
Eu, que não passava de uma réstia de luz numa poça d'água, tive esta oportunidade de existir nesta pele e nesta forma exata. Eu, que sempre admirei a vida humana, sem ter palavras ou conhecer a consciência para afirmá-lo, de repente me vi menina e me vi mulher. Sinto esta enorme responsabilidade, obrigação de ser livre para ser ao máximo, pois esta é a minha única chance.