Adeus, meu dois mil e dez, querido dois mil e dez. Sem pesar, deposito seu corpo nesta maravilhosa fonte, que foi onde eu o encontrei. Estou me separando de você e, enquanto vou me afastando, minha sombra se destaca da sua e meu corpo se diferencia do seu.
Foram apenas doze meses, cujo peso agora se reduz a uma frase. Eu o amei. Amei tudo aquilo que você poderia ser e uma imagem vaga que tentei com tanta força focalizar. Mas agora que me afasto, você se torna mais nítido, ainda que menor, e menor.
Não nego que você seja lindo. Porém, a beleza que eu via esteve todo o tempo aqui dentro. Acho que não posso chamá-la de “eu”, mas certamente ela faz parte da brilhante chama queimando em meu peito. Ela o consumiu e o amor aquietou. Você, como tantos outros, passou.
E eu passei, também. Imprimi mais uma sombra contra este muro branco e agora continuo. Levo-o comigo no segredo de sua grandeza que nunca alguém pôde perceber assim. Só eu. Pois sou aquele pedaço de desconhecido e insignificante que faz a arte valer a pena. O coração que o artista, do alto de sua distância, fez viver.
Mas já estou atrasada. Há minutos em minhas mãos esperando que eu os esmague e modele de acordo com minha criação. Não sei o que farei com eles. Muitos serão certamente destruídos, vítimas de meu desespero por saber-me responsável por sua forma. Seu peso em minhas mãos me fará chorar e eu acabarei esmigalhando seus frágeis segundos, em vão.
No entanto, espero poder agir com sabedoria em alguns destes preciosos espaços de tempo. E, tomando-os delicadamente, farei deles a minha arte pessoal. Não quero falhar com meus minutos. Não quero, mas sei que muitas vezes falharei.
O mundo chegará bem perto à meia noite do dia trinta e um. Com um hálito quente de quem jamais parou de girar, ele sussurrará sobre meu rosto esta verdade óbvia. Mas eu sorrirei, porque estarei com o recém-nascido nos braços, toda a brilhante matéria que moldarei.
E então ergo-me, triunfante, apesar de fracassada. Na linha da meia noite, carregada de meus minutos destroçados, levanto meus olhos para o céu e, em homenagem ao novo tempo que ganhei, grito.
Grito de volta na cara do mundo.
(31 de dezembro de 2010)
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