quinta-feira, 3 de março de 2011

Fim

Júlia jamais tivera pudores com ele. Despia-se na sua frente e andava de sutiã e calcinha com ele no quarto, sem se importar se virava o rosto para o lado. Abominava as conveniências e a cautela, jogava-se crua em seus braços, entregando a ele seu ser bruto, sem limpar as partes que não prestavam ou que simplesmente ele não poderia tragar. Queria acreditar que não havia nesta honestidade toda um tempero de violência que tomava o lugar do carinho ao conduzi-los à intimidade.

Porém, Gonçalves a amava. E não havia nada mais imperativo do que isto. Para um moleque adentrando com tanta intensidade pelo mundo das mulheres como ele fazia, ter toda essa matéria assim, sem censura, espontaneamente sob si era um decreto para o amor. Não um amor terno, compreensivo, um amor de afagos e abrigo. Mas algo como a mais incontrolável força da natureza, um clarão espalhando terror no escuro do mato. Um amor de queimadura excedendo a pele, vazando-a em seu intento de passar.

E Júlia, quanto menos tinha, mais pretendia entregar, mas terminava por cobri-lo de migalhas sem jamais deixá-lo ter.

Naquela tarde, Gonçalves entrou no quarto de república para encontrá-la só, cabelo molhado espalhando sua presença, impregnando as paredes com ela. O livro na mão era apenas o disfarce de sua verdadeira função de vigiar o celular.

Não pousou a mochila na porta ao entrar. Não tinha violão a tiracolo nem procurou o parapeito para se equilibrar. Como jamais, manteve-se parado, completamente estacado. Nem mesmo o pensamento mexeu e talvez, naquele misto de raiva frustrada se formulando no peito, Gonçalves tenha sentido a paz máxima que se pode alcançar. Mas pouco durou. Sentiu Júlia em sua pele e em seu cabelo embaraçado como o ar salgado da praia que tudo invade com mar em vento.

Júlia ergueu o rosto, distraída. É possível que não o tivesse percebido junto à porta e que fosse apenas refletir sobre a frase lida, mas então o olhar esbarrou em Gonçalves. Ele tinha os olhos congelados numa posição estranha. Seriam lágrimas? Definitivamente, eram lágrimas naquela expressão turva e elas não demorariam a sair.

Abriu a boca, mas dizer o quê?

Ela estava bêbada, Gonçalves, ela estava frágil. Talvez em toda a sinceridade tenha se criado uma mentira muito grande. O corpo de Júlia entregue ao de Gonçalves fora apenas a prova daquela imposição. O amor cortante dele era, afinal, passivo, apenas a aceitação. E ela não poderia deixar de comandá-lo, pois Como era bom!

Mas agora, junto à porta, esses olhos lavados e este rosto amadurecido pela noite insone denunciam a exigência de Gonçalves. Pois mesmo um sacrifício tem sua demanda. E Júlia não pode cumpri-la, não pode sequer admitir a dívida que cavara naquele peito magro.

O celular vibrou, ambos se sobressaltaram. A mão de Júlia agarrou o aparelho com urgência e a lágrima de Gonçalves escorreu pelo rosto recém-escanhoado. Ela nunca o vira tão limpo.

O celular esperava. Dentro dele, haveria uma nova mensagem, provavelmente mais um jogo cruel com os mistérios de alguém que jamais lhe garantiria um futuro. Júlia precisava disto. Do outro lado, era Gonçalves, o amigo tão fiel, o único. A intimidade daquela figura alta a circundando de má vontade, a presença intermitente que no entanto era tão estável. Sentir o cheiro enevoado da camiseta preta, o vício dele não era o fumo, mas seu modo de ser. E Júlia não gostava deste modo de ser, mas gostava de tê-lo perto.

Ainda assim, baixou os olhos e abriu o celular.

Adeus, Gonçalves. Não tem mesmo jeito, vá embora.

E ele foi.

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